quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Flores do pântano...




Recém me recupero de ter assistido "La môme", ou, como chamam no Brasil, "Piaf - Um hino ao amor". Confesso que o nome escolhido para nosso país está um tanto quanto equivocado. Há que se colocar um clichê fofo, um glacê cor de rosa (ainda que se perceba que está rançoso, depois de levado à boca) pra vender. É como se o país fosse feito de idiotas Telletubies que não aguentam o baque de uma história real, densa, com o demasiadamente humano em fratura exposta... Douram a pílula, mas, pílula é pílula, cacete!
Bem, mas nem era disso que ia dizer. Ops! Era, tanto que disse, mas, esse não é o foco principal. Mas um título desses dá a entender que a vida da franzina de voz monumental era um mar de rosas, quando isso é só o que nunca aconteceu.Aliás, PQP! Vá sofrer assim lá adiante!
Marion Cotillard deixa qualquer um perplexo com sua atuação. FIQUEI PASMA! Virei fã!
A trilha sonora é um desbunde, também, não era pra menos. A "pequena pardal" com sua voz inigualável, as músicas francesas mais lindas e carregadas de sentimento que conheço... (Sou feliz por ter crescido ouvindo suas canções...)Não deixarei aqui toda a ficha técnica pq isso aqui não é um site de crítica de arte. (Se bem que, pagando bem, que mal tem?!)
Afora a melancolia que ao acordar já passou, fica em mim mais uma vez uma estranha impressão. Uma impressão que confesso dói ter, e mais ainda dói comprovar nas histórias de muitas das grandes estrelas da música que tanto admirei.
Que impressão?! A de que as mais belas flores nascem das dores. O que leva cantoras fantásticas como Billie Holiday, Maysa, Cássia Eller, Edith Piaf e tantas outras, ao submundo, ao exagero, às drogas, aos vícios, à auto-destruição?! A beleza de uma obra só se consegue assim?! Ou será que cantar era o que lhes eximia momentaneamente da dor?! A vida tem tantas cores, porque justo a dessas divas foi tão cinza, tão irremediavelmente densa, dolorosa, trágica?! Elas não estão aqui pra contar...
No eixo masculino também há muitos, só me ocorre agora Elvis, Morrison e Cazuza, mas sei que há muitos.
O ponto comum de quase todos foi uma infância difícil em algum sentido. (A de cazuza, ao que sei, não.) Mas também foi a de Chaplin, que deixo uma linda obra e uma história mais profícua.
Nathalie Cole conseguiu reverter o quadro, torço para que Amy Winehouse também.
Consigo sentir a beleza no que deixaram as flores do pântano, mas não consigo entender a opção pela lama ao invés de outras paisagens...
Isso não é um julgamento, apenas a manifestação da minha incompreensão de alguns aspectos do demasiadamente humano. Não compreendo e, felizmente, jamais saberei o que é estar lá. Mas sinto isso uma tristeza pelo que deixaram de experimentar, de produzir. Não gosto de cor de rosa, mas tudo o que é monocromático tem em mim uma referência tediosa e triste.
Quando é que o ser humano aprendeu que amor tem de rimar com dor? Ou que amar-se é proibido? Porque a fuga está ligada à auto-destruição? Porque a beleza, nesses casos vem da tristeza?

3 comentários:

Duquesa Diaba disse...

(obtemperando)

Desde sempre os artistas são levados a criar em cima de sua dor. Compositores, músicos, poetas, atores, pintores... cada um lidando com sua permanente ou momentânea loucura de alguma forma. E me parece que seriam incapazes de produzir sem tais infortúnios. Ficam presos em um círculo vicioso. Escravos da criação por meio do sofrimento, como se fosse a única forma de sublimação. Então afundam-se cada vez mais.
A humanidade não dá valor às pessoas que são felizes e bem-resolvidas. Não dá Ibope. Nunca deu. Britney Spears ganhando um abraço de fã não sai no jornal. Um tapa que ela deu, sai. A multidão pede por desgraça. Os artistas as provêm.
Por que escolhem os caminhos mais tortuosos? Muitos o fazem. Não necessariamente por meio de álcool, drogas ou libidinagens extremas. Qualquer coisa que os façam se sentirem vítimas - doravante dignos de atenção - está valendo. Ninguém se preocupa com ninguém. Só com o escândalo. Depois que passa, o sofredor fica no esquecimento. Algum tempo depois, vira gênio.

Não sou fanática por nenhum artista. Nem lamento sua sorte ou azar. Cada um carrega seu fardo com a beleza ou com montruosidade.
Para muitos que não são artistas, reagem com sorrisos ou com ações concretas no auxílio de seus semelhantes, outros fecham-se em seus mundos e morrem em vida. Outros desafiam a morte, achando que não há nada nesse mundo que valha à pena.

Se a música, interpretação, poesia, filme ou seja lá o que for vem do sofrimento, não me importo muito. Claro que me envolvo com a mensagem. Pessoas são pessoas são pessoas. Diferentes e iguais a mim. Como todo mundo.

(ainda obtemperando...)
Existem vários pontos de vista sobre esse assunto e todos são válidos.


Vi o filme. Realmente o papel foi magnificamente interpretado.
Também fui criada ouvindo músicas do mundo todo. Meu pai cantava as músicas em francês para eu dormir. São boas recordações.

웃 Mony 웃 disse...

É perceptível essa tendência ao deprê e ao auto-destrutivo nos artistas em geral, não sei se nos músicos é mais evidente ou é pq eu me ligo mais em música...
Felizmente não são todos. Gosto de música triste, quando é bem feita. Mas, gente overdown é um saco, discurso overdown idem, tudo o que vira estilo de vida me dá tédio. Esse limitar-se a viver só um aspecto da vida é monótono demais.
Também não sou nem de saber como é a vida deste ou daquele, mas, uns ficam muito evidentes na mídia, pq escândalo vende, ou deixam isso muito evidente de outras maneiras, voluntariamente... Sinto pena, até de forma interesseira, daqueles cuja obra gosto, pelo risco de não haver tempo para mais produções, como foi com Cassia Eller, por exemplo. Acho triste vidas interessantes, de pessoas com algo a dizer, que se acabam cedo. inclusive pq são minoria. tem gente demais nesse mundo, mas gente feito gado, que serve para bife. Gente com criatividade, com expressão, que faça algo que valha, aí já a proporção fica injusta, seja nas artes, nas ciências, nos esportes... Os que fazem a diferença, não falo de hierarquia, mas, em termos de contribuição.

É estranho esse gosto pela tragédia, é a necrofilia da cultura judaico-cristã, o gosto pelo martírio, o supervalorização do herói.
Eu vejo beleza no sucesso. Quero mais é saber a história de quem se deu bem e perceber os pontos que levam a esse caminho, pq tem sim gente honesta que conseguiu.
Mas, preferência é preferência, ponto de vista idem.
Fico com o meu que é mais saudável.
Gosto de gente alto astral.
Dos artistas me interessa a arte, vida, já tenho a minha...
Quando vejo ou leio biografias, é entretenimento. Algumas servem de refer~encia do que fazer outras, do exato contrário.
Prefiro aprender com a dor dos outros do que na minha pelinha. ;)

Uma coisa boa é ter pais com bom gosto musical. isso influencia muito a gente. Adoro música e sempre ouvi das boas em casa, com meus pais. E também com meu avô materno, aprendi a gostar de músicas que já são centenárias ou mais com ele...
Meus pais não foram além em idiomas, mas, tinham sensibilidade pra perceber quando algo é bom, mesmo numa língua desconhecida. Afe! Família boa é algo que não tem preço. Sou muito grata pela que recebi.

Beijoconas, querida.
Gosto demais da tua presença aqui.

Pepe disse...

"Porque a fuga está ligada à auto-destruição? Porque a beleza, nesses casos vem da tristeza?"

Porque qdo vai-se ao céu, depois desce-se ao inferno e vice-versa. Coisas do nosso planetinha azul...

Ninguém tem um dom impunemente, infelizmente, qto mais sublime, mais drástica a descida.